julho 17, 2010

DAZINHA

Cinquenta anos de lacunas
escritas nas linhas de expressão
que o futuro tenta esconder

Tantas rugas quanto a nata
no copo de leite, no topo
que se forma ao esfriar com meu sopro
à ele foi permitido envelhecer

É como se nada tivese acontecido
como se o tempo nao tivesse vencido

E os olhos capazes
de entender e apreender
cada ano vivido em distância
ao ler os traços conhecidos
replicados em vários rostos
em que o próprio tempo fez as pazes.

Ah, os olhos!
janelas da alma, do coração
incapazes de esconder que o tempo
nao foi capaz de destruir
laços, elos e novelos de histórias
e estórias pra boi dormir

Talvez seja a impressão
de que essa gente que vive
no meio do nada
seja tao cheia de tudo
sem estar farta das coisas
sem fazer cara de enfadada

Talvez seja a impressão
de que fora daqui, como enfeites
tudo está ao alcance das mãos
que nos dá a sensação
de que estamos sempre vazios
como agora, meu copo de leite

É a égua da cara branca
que parada, ali, no meio do nada
só faz me lembrar que quem gira é a roda
do mundo que o homem insistiu em inventar.

JUNHO

Onde mora o som
onde a cabeça padece
onde tratos são feitos
e promessas permitidas

Com os pés que não param
como escravos da noite

Onde os olhos descobrem
a confusão que gera a arte

vagarosa e tênue

Entre o estúdio e o estático
entre o momento e o movimento
um pouco de luz,
sombra,
prata e tinta.

Onde descansam as palavras

Onde se amontoam

Verticais sob grandes nomes
horizontais sobre as paredes
em ritmos e rótulos,
sem rodeios

Ou amarrotados nos tecidos em viés

Podia catá-las, todas
e fazer uma corda de contas
mas senti a pele em que deslizam
para se tornarem contos
uma vez.


para S.M. Jun/10

julho 01, 2010

D’ALVA

Tem vento na janela
Tem gente dormindo
Tem vela,
ninguém mais está sorrindo

E fumaça

E onde há fumaça
Há um cigarro
Um trago, um raro
Minuto consumido em brasa
Em que pensa ter asa

Para rasgar o céu com a aurora
apagar as estrelas que outrora
agonizavam, distantes
no frio do espaço
com um brilho solitário que inspirou

Casais
Poetas
Leitores
Amores

Os signos, os sinais e os sonhos.

Agora que estamos só nós três
Eu, lua e o cigarro
Encontro outro ser solitário
que esqueceu que já deu horário
de deixar o sono tomar conta
e fazer de conta que vive um faz-de-conta
Sem fazer conta das contas do rosário
ou dos atores no cenário.

Vai embora, moça alva
Mas volta pra morrer de novo amanhã
Diante dos meus olhos
como sempre fazem os sonhos
quando acordo de manhã
e chega a hora de voltar pra casa.


Abr/10

BRÊU

É quando a noite me permite ouvir os seus ensaios
Que fico pensando o que pesa a cabeça dos homens
Sobre seus travesseiros
Os dedos cansados do controle
Ou do teclado, da tela e do texto.

A vida
O vídeo
O virtual
O veneno
O vicio

E o vidro que me separa da rua

É quando a noite me deixa ouvir seus recados
Os tique-taques desencontrados
Os amores
e sussurros
abafados

As vontades ocultas

Porque a noite quer que alguém ouça seus murmúrios
Que escute seu sorriso
O som surdo do tempo
Escoando no liso
Sem pressa

Os meandros
Os medos
As medidas
As metáforas
Os mortos
Os muros

E os murros em ponta de faca

A luz parca
E o lápis arranhando o papel.



Mar/10

PONTO A, B, C, G...

Não as deixo sair tão soltas
As palavras do meu escaninho
Merecem cuidados de moças
Pra não se perderem no caminho
E devem ser galantes como moços
Pra não acabarem sozinhos

Não podem tomá-las a força
Elas te pedem carinho
Despi-las de todos os sentidos
Farei, “devagarinho”

Nas curvas descansar os braços
Para gozar de mansinho
Sussurros soprados solenes
Pedindo só mais um pouquinho.


n/a

VERSOS DIVERSOS

Verso é verso
Não é versus
Não vai contra ninguém
É reverso, é avesso
É possesso, quando consome alguém

Verso é conversa
E, na cozinha, é conserva
Conversa na cozinha
Conserva o verso

Verso é diverso
é divertido, é diversão
tem quem tira verso da televisão
ai é derivado, ou vendido
enlatado e espremido
versos divididos em fatias de pão.

Sao divergentes, digeridos
Alguns sao ate descabidos
Parecem caídos do céu de verão
E aqui, desinibidos
Depois de um tempo escondidos
Desfilam palavras
Desafinadas ou não.

São adversos, advertidos!

Estavam brincando com as palavras entao?

Únicos versos escondidos
Em universos bandidos
Advertising banidos
Pra rede, ou pro chão.

São versos
Diversos
De universos adversos...
Que quando se chocam provocam ilusao.




Ago/09

INTERJEIÇÕES

O que o Mundo espera da gente é mudança
O que a mudança espera da gente é atitude
O que os pais esperam da gente é felicidade
O que o País espera da gente é consciência
O que o outro espera é que você faça por ele...

O que o amor espera da gente é fidelidade
O que o amigo espera da gente é sinceridade
O que o colega espera da gente é o sucesso
Do nosso inimigo, a gente espera o inverso

O que a criança espera da gente é o exemplo
O que nossos chefes esperam da gente é o tempo
O que nossos filhos esperam da gente é o tempo
O que o tempo não faz, é esperar

O que a velhice espera da gente é o sossego
O que a morte espera da gente é o enredo
O que Deus espera da gente é o recomeço
O que o recomeço espera da gente é um fim ao avesso

O que as palavras esperam da gente é um ponto
O que o ponto espera da gente é o parágrafo
O que o parágrafo espera da gente é o sentido
O que o sentido espera da gente é a escolha

O que a escolha espera da gente é o caminho
O que o caminho espera da gente é segui-lo

Sou Mundo, sou o outro
Sou pai, sou País
Sou amor, sou amigo
Sou colega e inimigo
Fui criança, sou exemplo
Não sou chefe, nem sou tempo
Serei velho, verei a morte
Se verei Deus, só se tiver sorte
Sou palavra, nunca ponto

E a gente, o que espera da gente?



Jul/07