junho 24, 2010

LOTAÇÃO

Janela indiscreta me separa da vida
Cadeira
Corrida
Roleta
Corrimão
O ferro em que todos descansam as mãos

Onde todos sossegam na vida
Sendo guiados por Deus ou por sorte
Talvez no silêncio celebrem a morte
Talvez na ausência esperem um corte
Talvez na sua pressa precisem de um norte

Estranhos sentados, rostos alinhados
Retratos cansados da linha de produção

No dia findado, recém-começado
Só leva o esforço pra casa ou não

E quando lotado, não mais que apertado
Mal sinto batidas de um só coração
Meus passos pensados, às vezes, contados
Lutam por espaço num chão de alçapão

Num ato pensado
no braço esticado
paro mil mundos num ponto qualquer.
Serei despojado se ali,
exilado deste mundo truncado
deixar meu passado seguir como quer?


Abr/2007

HORIZONTE(S)

Todo horizonte é um ponto de fuga
Nem toda fuga depende de um ponto
Todo horizonte é uma linha de encontro
Mesmo que seja destino das despedidas
Todo horizonte é um limite, sinuoso e paradoxo
Ponto de partida para além
Todo horizonte é um sonho
Horizontal é o sono e o sexo
Todo horizonte é um funil
Torna pequenas as coisas que se afastam de mim
Escoa a realidade para a imaginação
Todo horizonte é belo? Não sei, aprendi que sim
Todo horizonte é uma perspectiva
Nem toda perspectiva é um horizonte
Nem toda perspectiva gera expectativa
Nem toda expectativa aponta um horizonte
Toda perspectiva é um ponto de vista
E todo horizonte é uma vista de um ponto de vista
Uma vista de um ponto
Um ponto
Uma vista
O horizonte é uma vista
Uma vista de um ponto de vista
Linha que tende ao infinito circular
Meia parábola que não soube contar
Quadro que não posso tocar
Horizonte é o meio do jornal aberto
Espaço em branco entre realidades
Onde posso pensar o que quero
Já que não me faltam vontades.



Fev/07

SOB TETOS, SOBRE CAMAS

Sob tetos, sobre camas


Tela em branco, que me mostra a fuga
Desenho toda sua estória nesta planície
E essa voz, que me dita sonhos tristes
Escreverei sobre esta cama, para onde não olhas
O que diz ser sua vida, sua história
E os cantos das paredes serão seus limites
Ao abrir os olhos ao dormir, e fechá-los ao acordar.

Pintou de azul celeste tua laje
Para separar o seu céu do de Deus
E domar teus metros quadrados de vontades
E pedir indulgências na madrugada
Esperar a esperança, como se fosse uma criança
Desabar sobre teus desejos escondidos sob a cama
E rir de suas desgraças, como seus amigos de infância.

Tem cor forte teu telhado, ele te imita
Esta cor, se não sabes, me limita
Ela se move sozinha durante a noite, enquanto dormes
E toma conta do teu quarto como um cão bravo
Que deixou sem comida novamente esta semana
Porque a rotina te sugou garganta a baixo
E para não morrer de fome, ele te devora.
E leva teus sonhos embora, sem que se dê falta.

Quando chove, pinga.
Não sei se vai ficar bem...
Já tem remendos demais esta cobertura, desfaça-os
Está na hora de suas atitudes se renovarem
De estes remendos o deixarem, e sentir-se seguro enquanto dorme
Mais que renovar o telhado precisa primeiro
Renovar a confiança em ti, antes que apodreças
E morra sufocado sob teus escombros de lembranças.

Coloquei estrelas no meu telhado
são de plástico, como todo sonho moderno
vão durar anos, talvez mais que os meus
é pra ter ao meu alcance constelações com nomes próprios
das pessoas mais impróprias



Jan/09

NÓS

É pra falar de mim
Não de vocês
Nem de nós dois

A sós
estais vós
por que nós nos prendem

Nós estamos sós
Vorazes

Desatando nós
Desatando-nos
Desfazendo-se em outras vias
Distanciando-se pelas mesmas guias
Percorres pés, a vários nós
E, estando a sós
Mande um SOS

Mas,

Quem de nós
Vai dar voz
As vozes dentro das nozes
me dizes...

Uma só nota
Numa só pauta
Dez
Por favor, tenha dó né!
Veja o sol, lá
Vá de ré.

A mais solitária medida
A mais solidária medida
Dez, pra nós
Deixa a sós
Quem só quer um,
Pois um só basta
Pra não ser só um
Pra não se ser só
Pra não estar a sós
Como nós
Como a noz


Porque nós
Não somos nozes.
Incapazes.

Jan/09

CINZA

Esta Terra que se aquece
não me aquece
Esta gente que faz prece
me enlouquece

Seus pedidos ritmados
transparecem
Um pedido de perdão
que não merecem
Um suspiro é uma explosão
que estremece
É respirar do mesmo ar
porque carece
E se esquecer de aliviar
do que padece
Nesta sombra,
solidão que entristece
Neste riso,
que sorriso não parece

E meus sonhos
que o Mundo não conhece
Não perderam a inocência,
pois se cresce
Se consomem,
porque preço não se desce
E se confundem,
por que mais que se quisesse
Não há brilho
nesta luz que resplandece

Somos tão diferentes
que parece
Que o risco do grafite
que enegrece
Se animou a colorir
o céu do agreste
Num tom cinza,


Porque cinza não rima.



Mai/07

-ÃO

Me ajuda a entender
que certos laços não desatam
quem me mostra as estrelas
me deixa sem direção
quem me faz querer voar
quer me ver no chão
quem indica o caminho certo
pertence aos errantes

A gente sempre tenta colar
o que quebramos ontem

Os que entram muito rápido
demoram mais a sair

Vai embora luz idiota!
Vê se me deixa dormir...

Nem tudo precisa de explicação
há campos que não pertencem à razão,
há forças que sustentam a Criação
e há espaços que precisam de confusão.

Razão é coração sem paixão
Paixão é um coração sem razão
Coração sem paixão não tem razão
Sem razão coração não tem paixão

To feito um poeta que insiste
carregar toda dor que existe
esquecer a razão do meu coração
estar sem paixão
com tanta paixão
em volta de mim..

Seus males se confundem com o triste
poeta errante que existe
num mundo castrado em riste
por algo que disse um tal Niestzche
que poetas mentem demais.



[em pareceria com Naiara Archanjo]
Mar/08